
Disposições para fazer uma boa oração
Continuando o segundo bloco pedagógico do nosso curso — dedicado à oração e correspondente à quarta parte do Catecismo da Igreja Católica — estudaremos agora as disposições necessárias para rezar bem. Já recordamos a célebre sentença de Santo Afonso Maria de Ligório: “Quem reza se salva; quem não reza se condena.” Se pedimos e não recebemos, pode ser porque buscamos algo que não convém ou porque não pedimos como deveríamos, conforme adverte São Tiago.
A oração não é uma fórmula para obrigar Deus a cumprir nossos desejos. É um encontro filial no qual elevamos a alma ao Senhor, apresentamos nossas necessidades e aprendemos a conformar nossa vontade à d'Ele. Por isso, a eficácia da oração está ligada não apenas ao que pedimos, mas também às disposições com que nos colocamos diante de Deus.
Sagrada Escritura
“Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos prazeres.” — Tiago 4,3
“Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.” — João 15,7
Catecismo da Igreja Católica
A confiança filial é provada quando temos a impressão de não ser atendidos; a conversão do coração ensina-nos a procurar primeiro a vontade do Pai. — Cf. CIC, nn. 2734-2737
Estado de graça ou desejo sincero de recuperá-lo
A primeira e melhor disposição para rezar bem é estar em estado de graça. Se a pessoa caiu em pecado mortal, deve ao menos ter o desejo sincero de recuperar quanto antes a amizade com Deus, arrependendo-se e procurando a Confissão.
Isso não significa que o pecador esteja proibido de rezar. Pelo contrário: deve rezar para obter a graça da conversão. O problema está em permanecer voluntariamente no pecado, sem intenção de abandoná-lo, e querer tratar Deus apenas como alguém a quem se pedem vantagens temporais. A oração verdadeira abre o coração à mudança de vida.
Sagrada Escritura
“O Senhor está longe dos ímpios, mas ouve a oração dos justos.” — Provérbios 15,29
“Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra; e Meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele morada.” — João 14,23
Catecismo da Igreja Católica
A oração e a vida cristã são inseparáveis, pois procedem do mesmo amor e da mesma renúncia que nasce do amor. — Cf. CIC, n. 2745
Atenção, recolhimento, respeito e devoção
A segunda condição é rezar com atenção, recolhimento, respeito e devoção:
- Atenção: procurar compreender o que dizemos e saber o que estamos pedindo. Entregar-se voluntariamente à distração prejudica a oração.
- Recolhimento: buscar, dentro do possível, um momento e um ambiente favoráveis ao silêncio interior.
- Respeito e reverência: recordar que estamos diante de Deus, nosso Criador, Senhor e Pai.
- Devoção: rezar com prontidão da vontade e amor, mesmo quando não há consolação sensível.
Não devemos abandonar a oração porque as condições não são ideais. Pais com crianças pequenas, pessoas doentes ou trabalhadores em ambientes movimentados podem rezar oferecendo a Deus o esforço possível. O ótimo não deve tornar-se inimigo do bom: se não conseguimos silêncio absoluto, rezemos com o recolhimento que estiver ao nosso alcance.
As distrações podem ser voluntárias, quando deliberadamente nos entregamos a elas, ou involuntárias, quando surgem sem que as queiramos. Se combatemos serenamente as distrações involuntárias, a oração conserva seu valor e seu mérito, ainda que elas persistam.
Sagrada Escritura
“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.” — Mateus 26,41
“Orai sem cessar.” — 1 Tessalonicenses 5,17
Catecismo da Igreja Católica
A distração revela aquilo a que estamos apegados; tomar consciência disso deve levar o coração a voltar humildemente ao Senhor. — Cf. CIC, n. 2729
Humildade, confiança, perseverança e resignação
1. Humildade
Rezar com humildade é reconhecer sinceramente nossa condição de criaturas, nossa fraqueza e nossa dependência da graça. Por nós mesmos, nada podemos exigir de Deus. A atitude do publicano, que nem ousava levantar os olhos e pedia misericórdia, permanece um modelo para todo cristão.
“Todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” — Lucas 18,14
“A oração do humilde penetra as nuvens.” — Eclesiástico 35,21
A humildade é o fundamento da oração, pois o homem é um mendigo de Deus. — Cf. CIC, n. 2559
2. Confiança
Junto da humildade deve existir inteira confiança em Deus. Não confiamos em nossos méritos, mas na bondade, na onipotência e na misericórdia divinas. Humildade e confiança não se contradizem: somos humildes por causa do que somos e confiantes por causa de quem Deus é.
Santa Teresa d'Ávila compreendeu que a falta de confiança dificultava seu progresso na oração. A confiança filial não significa imaginar que receberemos tudo exatamente como desejamos; significa crer que o Pai nos dará aquilo que verdadeiramente conduz ao nosso bem.
“Tudo o que pedirdes com fé na oração, recebereis.” — Mateus 21,22
“Confia no Senhor de todo o teu coração.” — Provérbios 3,5
A confiança filial é a atitude própria da oração cristã e apoia-se no amor de Deus por nós. — Cf. CIC, n. 2734
3. Perseverança
Se Deus não atende prontamente, não devemos desanimar. A espera pode fazer-nos crescer em humildade, paciência e confiança. A mulher cananeia insistiu até ser atendida; o paralítico da piscina esperou muitos anos; Santa Mônica rezou longamente pela conversão do filho, Agostinho, mesmo quando tudo parecia piorar.
Quando pedimos bens espirituais, a demora pode purificar nosso desejo. Quando pedimos bens temporais, Deus pode não os conceder porque não convêm à salvação. Em ambos os casos, a resposta cristã é perseverar com maior fervor, sobretudo nas tentações e dificuldades.

“Deus não fará justiça aos Seus eleitos, que clamam por Ele dia e noite?” — Lucas 18,7
“Sede perseverantes na oração.” — Colossenses 4,2
A perseverança na oração corresponde ao chamado de Cristo para rezarmos sempre, sem desfalecer. — Cf. CIC, nn. 2742-2743
4. Resignação e conformidade com a vontade de Deus
Rezar com resignação cristã é conformar-se com a vontade de Deus, que sabe melhor do que nós o que é necessário à nossa salvação. Devemos aceitar o tempo, o modo, a medida e as circunstâncias escolhidas por Ele. A oração de Jesus no Horto é o modelo perfeito: Cristo apresenta sua angústia ao Pai, mas entrega-se inteiramente à vontade divina.
“Pai, se queres, afasta de Mim este cálice; contudo, não se faça a Minha vontade, mas a Tua.” — Lucas 22,42
“Nós sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.” — Romanos 8,28
Em Jesus e por sua vontade humana, a vontade do Pai foi cumprida perfeitamente; por isso Ele nos ensina a pedir: “Seja feita a vossa vontade”. — Cf. CIC, n. 2824
Em que momentos devemos rezar?
Devemos cultivar um espírito habitual de oração e recorrer a Deus em todas as circunstâncias, especialmente nos perigos do corpo e da alma, nas tentações, nas doenças, nas aflições e na hora da morte. Além disso, o católico deve estabelecer um ritmo concreto para sua vida espiritual:
- oração da manhã, ao levantar;
- oração da noite, antes de deitar;
- orações antes e depois das refeições;
- meditação ou oração mental, começando com dez ou quinze minutos e progredindo conforme as possibilidades;
- leitura espiritual, que nutre a inteligência e combate a tibieza;
- Terço diariamente, se possível;
- Santa Missa aos domingos e dias de preceito.
Horários definidos ajudam a vencer a preguiça e impedem que a oração seja sempre adiada. Cada pessoa deve organizar-se de acordo com seus deveres de estado. Não é correto negligenciar a família ou o trabalho sob o pretexto de rezar excessivamente, mas também não se devem transformar os deveres cotidianos em desculpa para abandonar a oração básica.
“Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça.” — Mateus 6,33
A tradição da Igreja propõe ritmos de oração destinados a alimentar a oração contínua: alguns são diários, outros semanais e anuais. — Cf. CIC, n. 2698
Por quem devemos rezar?
A caridade cristã possui uma ordem, mas nunca se fecha em egoísmo. Rezamos por nós mesmos e estendemos nossa intercessão ao próximo e a toda a Igreja:
- por nós mesmos, pedindo as graças necessárias à salvação;
- pelos familiares, amigos e benfeitores;
- pelo Papa, pelos bispos, sacerdotes e demais autoridades;
- pelos pecadores, para que se convertam;
- pelos justos, para que perseverem;
- pelos hereges, cismáticos e excomungados, para que retornem à plena comunhão com a Igreja;
- pelos que nos perseguem e pelos inimigos, obedecendo ao mandamento de Cristo;
- pelas almas do Purgatório, em espírito de caridade, piedade e justiça.
Podemos rezar por todos os vivos, pois enquanto há vida existe possibilidade de arrependimento e conversão. Não se reza pelos condenados, porque seu estado é definitivo e já não podem arrepender-se.
“Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem.” — Mateus 5,44
“Orai uns pelos outros, para serdes salvos.” — Tiago 5,16
A intercessão cristã não conhece fronteiras e estende-se também aos perseguidores e à salvação daqueles que rejeitam o Evangelho. — Cf. CIC, nn. 2635-2636
As distrações e seus remédios
As distrações são pensamentos ou imagens alheios à oração. Algumas surgem involuntariamente por causa do temperamento, da imaginação viva, do cansaço ou da saúde debilitada. Outras têm causas voluntárias: falta de preparação, escolha imprudente do lugar, agitação excessiva antes de rezar, curiosidade desordenada, dissipação habitual ou tibieza.
Alguns remédios práticos podem ajudar:
- fazer uma preparação próxima, escolhendo, quando possível, um lugar calmo, um horário favorável e uma postura respeitosa;
- guardar os sentidos e combater a curiosidade que alimenta a dispersão;
- concentrar-se na tarefa presente, evitando o hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo;
- fixar serenamente o olhar numa imagem sagrada;
- rezar cada vez mais por amor a Deus e não apenas por obrigação;
- não se perturbar com as distrações involuntárias, mas retornar com calma ao ponto da oração;
- examinar se existem causas voluntárias e corrigi-las.
O combate às distrações não consiste em ficar analisando cada pensamento que passa, mas em voltar docemente o coração para Deus quantas vezes forem necessárias.
“Tudo o que fizerdes, fazei-o de coração, como para o Senhor.” — Colossenses 3,23
Perseguir a distração seria cair em sua armadilha; basta regressar humildemente ao Senhor e oferecer-Lhe novamente o coração. — Cf. CIC, n. 2729
A aridez e seus remédios
A aridez é a ausência de gosto sensível ou de consolação na oração. Muitos confundem santidade com sentir-se bem; contudo, a vida espiritual não se mede pelas emoções. A santidade consiste na graça, na caridade e na fidelidade à vontade de Deus. A oração compromete a inteligência e a vontade, mesmo quando os sentimentos não acompanham.
Deus pode permitir a retirada das consolações sensíveis para purificar nossa intenção, de modo que não busquemos apenas o prazer espiritual, mas o próprio Deus. No início da vida interior, as consolações às vezes ajudam a formar bons hábitos; depois, a alma pode ser conduzida a uma fé mais pura.
Diante da aridez, devemos:
- perseverar na oração, mesmo sem sentir consolação;
- examinar se existe alguma causa voluntária, como pecado venial deliberado, tibieza, apego desordenado ou má preparação;
- buscar o Deus das consolações, e não somente as consolações de Deus;
- aceitar a provação com resignação e continuar rezando;
- recordar, com São João da Cruz, que a purificação dos sentidos pode preparar uma união mais profunda com Deus.
“Ainda que a figueira não floresça [...] eu, porém, exultarei no Senhor.” — Habacuque 3,17-18
A aridez faz parte da oração quando o coração parece separado de Deus e sem gosto pelos pensamentos e sentimentos espirituais; é então o momento da fé pura. — Cf. CIC, n. 2731
Santidade não é sentimento
É um erro confundir santidade com entusiasmo, emoção forte ou consolação. Quando a sensibilidade diminui, alguém pode imaginar que perdeu a fé, que está regredindo ou que Deus o abandonou. Mas a qualidade da vida espiritual manifesta-se sobretudo na fidelidade, na caridade, na humildade e na obediência à vontade divina.
Na Transfiguração, São Pedro desejou permanecer no monte, mas os discípulos precisaram descer e continuar o caminho que conduzia à Cruz. As consolações são presentes passageiros; o essencial é permanecer unido a Deus. A fé continua agindo mesmo quando não sentimos nada extraordinário.
“Bem-aventurados os que não viram e creram.” — João 20,29
“A fé é o fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem.” — Hebreus 11,1
A oração cristã é uma relação de Aliança entre Deus e o homem em Cristo, não a busca de uma sensação passageira. — Cf. CIC, n. 2564
Para rezar bem, precisamos estar em estado de graça — ou desejar sinceramente recuperá-lo —, cultivar atenção e recolhimento, praticar a humildade e a confiança, perseverar nas dificuldades e conformar-nos com a vontade de Deus. Também precisamos de um ritmo ordenado de oração e de paciência para enfrentar distrações e aridez.
Lembremo-nos sempre: “Quem reza se salva; quem não reza se condena.” A oração é o respiro da alma. Sem ela não podemos perseverar na graça; com ela, aprendemos a receber tudo das mãos de Deus e a caminhar fielmente para a vida eterna.
Sagrada Escritura
“Orai sem cessar.” — 1 Tessalonicenses 5,17
“Vigiai e orai.” — Mateus 26,41
Catecismo da Igreja Católica
É sempre possível rezar, e a oração é uma necessidade vital para quem deseja permanecer unido a Cristo. — Cf. CIC, nn. 2742-2744
