
O que é a oração?
Concluído o estudo do Credo, que resume as verdades em que devemos crer, iniciamos agora um novo bloco do nosso curso: a oração. Embora corresponda à quarta parte do Catecismo da Igreja Católica, ela será estudada neste momento por uma escolha pedagógica, ajudando-nos a transformar em diálogo com Deus as verdades que acabamos de conhecer e professar. Lembremo-nos sempre da célebre frase de Santo Afonso Maria de Ligório: “Quem reza se salva, quem não reza se condena” — subentendendo-se: quem reza bem se salva; quem reza mal ou não reza, condena-se. O Catecismo não é mero conhecimento especulativo, mas deve conduzir-nos ao caminho da santidade e da união com Deus. Conhecer melhor a Deus é o primeiro passo para amá-Lo e servi-Lo mais profundamente.
Ao longo dos séculos, os santos deram inúmeras definições de oração:
- São Gregório de Nissa: “A oração é um colóquio com Deus.”
- São João Crisóstomo: “A oração é falar com Deus.”
- Santo Agostinho: “A oração é a conversão da mente a Deus com afeto piedoso e humilde.”
- São João Damasceno: “A oração é a elevação da mente a Deus.”
- São Boaventura: “A oração é o afeto piedoso da mente dirigido a Deus.”
Todas essas definições convergem para o mesmo núcleo. Santo Tomás de Aquino, sintetizando-as, ensina que a oração é a elevação da alma a Deus para louvá-Lo e pedir as coisas convenientes para a salvação eterna.
Assim, a oração supõe uma elevação da alma a Deus, com atenção e recolhimento. Uma oração sem essa elevação, por pura distração, não é propriamente oração. Elevar a alma significa voltar todas as faculdades — inteligência, vontade e afetos — para Deus, para louvá-Lo e pedir o que nos conduz à vida eterna.
Sagrada Escritura
“Orai sem cessar.” — 1 Tessalonicenses 5,17
“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.” — Mateus 26,41
Catecismo da Igreja Católica
“A oração é a elevação da alma a Deus ou o pedido a Deus de bens convenientes.” — CIC, n. 2559
A oração cristã é uma comunhão de aliança com Deus em Cristo. — Cf. CIC, n. 2564
Finalidades da oração
A oração tem quatro grandes finalidades, que correspondem também a quatro atitudes fundamentais do coração diante de Deus:
- Adoração — finalidade latrêutica: reconhecer o soberano domínio absoluto de Deus sobre todas as coisas e submeter-se a Ele. A adoração é devida somente a Deus, porque só Ele é o Criador e Senhor de tudo. Não se trata apenas de confessar que Deus é Senhor, mas de dispor-se a obedecer-Lhe e render-Lhe o culto de latria.
- Ação de graças — finalidade eucarística: agradecer a Deus todos os benefícios recebidos, desde a criação até as graças cotidianas. Tudo o que temos e somos vem d'Ele gratuitamente.
- Oração propiciatória: pedir perdão pelos pecados cometidos, implorando a misericórdia divina.
- Petição — finalidade impetratória: pedir as graças de que necessitamos para a salvação. Esta é a finalidade mais característica da oração em sentido estrito: pedir a Deus o que nos é útil para a vida eterna.
Sagrada Escritura
“Adorai o Senhor vosso Deus, e só a Ele prestai culto.” — Mateus 4,10
“Em tudo dai graças.” — 1 Tessalonicenses 5,18
“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar.” — 1 João 1,9
“Pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á.” — Mateus 7,7
Catecismo da Igreja Católica
A adoração é o primeiro ato da virtude da religião: nela reconhecemos Deus como Criador, Salvador, Senhor e Mestre de tudo quanto existe. — Cf. CIC, n. 2628
A ação de graças caracteriza a oração da Igreja e reconhece que todo acontecimento e toda necessidade podem tornar-se oferenda de agradecimento. — Cf. CIC, nn. 2637-2638
O pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de petição e antecede uma oração justa e pura. — Cf. CIC, n. 2631
Erros com relação à oração
Ao longo da história, surgiram diversas posturas erradas sobre a oração:
- Deístas e epicuristas: acreditam que Deus criou o mundo e o abandonou, sem cuidar das criaturas. Para eles, a oração é inútil. Mas a fé católica ensina que a Providência divina alcança todas as coisas, das maiores às menores.
- Fatalistas, deterministas, estoicos, luteranos e calvinistas: negam a liberdade humana, afirmando que tudo já está predeterminado, inclusive a salvação ou condenação, independentemente dos méritos. Com isso, a oração perde o sentido. A Igreja, porém, ensina que Deus respeita a nossa liberdade e condicionou muitas graças à nossa oração.
- Aqueles que creem em magia ou práticas supersticiosas: pensam que a oração pode mudar a vontade de Deus. Isso é um erro profundo: Deus não muda, mas, desde toda a eternidade, condicionou inúmeras graças ao nosso pedido. Não rezamos para informar a Deus, que já sabe de tudo, mas para que, por meio da oração, recebamos o que Ele, desde sempre, quis nos dar mediante a nossa súplica.
O exemplo das Bodas de Caná (Jo 2,1-11) é claro: Nossa Senhora intercede, e Jesus realiza o milagre. Ele já sabia da necessidade dos noivos, mas quis atender ao pedido da Mãe. Do mesmo modo, Deus condicionou muitas graças à oração.
Sagrada Escritura
“Vós não tendes, porque não pedis.” — Tiago 4,2
“Pedi e dar-se-vos-á.” — Lucas 11,9
Catecismo da Igreja Católica
Quando louvamos ou damos graças, Deus não precisa de nossa oração; é o seu dom que nos dispõe a receber Aquele que é a fonte de todo dom. — Cf. CIC, n. 2628
A oração filial é provada quando parece não ser atendida; por isso, devemos perguntar se Deus é verdadeiramente um Pai cuja vontade procuramos cumprir ou apenas um meio para obter o que desejamos. — Cf. CIC, nn. 2734-2737
Os benefícios e a dignidade da oração
A oração traz inúmeros benefícios para a alma:
- Reconhece a nossa completa dependência de Deus, Soberano Senhor.
- Favorece a humildade, ao vermos nossa pequenez diante do Altíssimo.
- Faz-nos perseverar, ensinando-nos a não desistir.
- Aumenta a confiança em Deus, pois recorremos a Ele como a um Pai.
- Alcança a misericórdia divina e tira-nos da miséria do pecado.
- Fortalece contra as tentações: é a principal arma espiritual.
- Conforta nas tribulações e auxilia em todas as necessidades.
- Alcança a graça da perseverança final, para morrer em estado de graça.
- Leva-nos a uma respeitosa familiaridade com Deus, nosso Pai.
A oração é um dos atos mais dignos do homem, pois só o ser humano e os anjos — seres dotados de inteligência — podem orar. Os irracionais não são capazes disso. O homem nunca é mais grandioso, mais nobre e mais verdadeiramente viril do que quando está de joelhos diante de Deus. A verdadeira dignidade do homem é conhecer, amar e servir a Deus, dobrando os joelhos diante d'Ele.
Sagrada Escritura
“A oração do humilde penetra as nuvens.” — Eclesiástico 35,21
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação.” — Mateus 26,41
Catecismo da Igreja Católica
A oração é dom de Deus, aliança e comunhão. — Cf. CIC, nn. 2558-2565
A oração é a vida do coração novo e deve animar-nos a todo momento. — Cf. CIC, n. 2697

Necessidade da oração
A oração não é apenas conveniente; ela é absolutamente necessária para a salvação. Santo Afonso repete: “Quem reza se salva, quem não reza se condena.”
Por que é necessária?
- Por mandamento divino: Cristo ordena claramente: “Vigiai e orai” (Mt 26,41); “É preciso rezar sempre, sem nunca desistir” (Lc 18,1); “Pedi e recebereis” (Mt 7,7); “Rezai sem interrupção” (1Ts 5,17).
- Por mandamento da Igreja: a Igreja obriga-nos, ao menos, a assistir à Missa aos domingos e dias santos, e obriga os sacerdotes a rezar o Ofício Divino, a Liturgia das Horas. O sacerdote que deixa de rezar o breviário comete pecado grave, porque a oração pública da Igreja tem um peso imenso.
- Pela própria razão: mesmo que não houvesse mandamento, nossa razão mostra que, sozinhos, não podemos manter-nos na graça nem evitar o pecado sem o auxílio divino. Deus condicionou inúmeras graças à oração; se não rezamos, não recebemos esses auxílios. Rezar já é uma graça, e Deus a concede para que peçamos mais.
Sagrada Escritura e Tradição
“Sem Mim, nada podeis fazer.” — João 15,5
“Deus não nos manda fazer o impossível, mas, mandando-nos fazer o que podemos e pedir o que não podemos, Ele nos ajuda para que possamos.” — Santo Agostinho
Catecismo da Igreja Católica
“Orar é uma necessidade vital. [...] Quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena.” — CIC, n. 2744
Para quem se deve rezar?
Podemos rezar de dois modos:
- Diretamente a Deus: pedindo ao próprio Deus, que é o único que pode dar-nos a graça.
- Indiretamente, por intercessão: recorrendo aos santos e anjos para que intercedam por nós junto de Deus.
Aos santos e anjos devemos recorrer com confiança. Muitos hereges, como os cátaros na Idade Média e os protestantes, negaram essa intercessão. As principais objeções são respondidas assim:
- “Jesus é o único Mediador.” Verdade, mas Ele é o único Mediador de redenção, que nos merece a salvação. Os santos são mediadores de intercessão, subordinados a Cristo, dependentes dos méritos d'Ele e d'Ele recebendo toda graça.
- “Os santos não podem ouvir nossas orações.” No Céu, os santos veem Deus face a face, na visão beatífica. Em Deus, eles conhecem o que lhes é conveniente conhecer, inclusive nossas preces. Deus lhes apresenta nossos pedidos.
- “Deus é tão bom que não precisa de intercessores.” Deus é tão bom que quis dar-nos intercessores, para que, por meio deles, recebamos mais abundantemente as graças. Assim como um rei bondoso aceita os pedidos de seus amigos e de sua mãe, Deus dá-nos os santos e, especialmente, Nossa Senhora.
Sagrada Escritura
“As orações dos santos subiram diante de Deus.” — Apocalipse 8,4
“Orai uns pelos outros.” — Tiago 5,16
Catecismo da Igreja Católica
Os santos contemplam Deus, louvam-no e continuam cuidando daqueles que deixaram na terra; sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus. — Cf. CIC, nn. 956 e 2683
A maternidade de Maria na ordem da graça perdura sem interrupção; por sua intercessão, ela continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. — Cf. CIC, n. 969
A intercessão dos santos
Honramos os santos com o culto de dulia, isto é, veneração, completamente distinto do culto de latria, a adoração devida somente a Deus. A dulia é a reverência e o respeito àqueles que estão unidos a Cristo e deixaram Cristo atuar neles.
Distinguimos ainda:
- Hiperdulia: culto de veneração especial devido a Nossa Senhora, por ser Mãe de Deus; é superior ao culto dado aos demais santos, mas sempre muito inferior à adoração devida a Deus.
- Protodulia: veneração especial a São José, o primeiro dos santos depois de Nossa Senhora.
Quanto mais santo é o santo, maior é seu poder de intercessão. Por isso, devemos recorrer com particular confiança a Nossa Senhora, Medianeira de todas as graças. Mas é bom também invocar outros santos, especialmente aqueles por quem temos maior devoção, nosso padroeiro, o santo de nosso nome ou aqueles que são conhecidos por intercederem em determinadas necessidades.
Sobre as almas do Purgatório, a Igreja não definiu se podem interceder por nós. A piedade popular tende a crer que sim, e é lícito recorrer a elas com prudência.
Sagrada Escritura
“Não sois vós que haveis de julgar os anjos?” — 1 Coríntios 6,3
“Aquele que crê em Mim, ainda que morra, viverá.” — João 11,25
Catecismo da Igreja Católica
A intercessão dos santos é uma participação na própria intercessão de Cristo e manifesta a união da Igreja com eles. — Cf. CIC, nn. 956 e 2683
Por quem se deve rezar?
Devemos rezar:
- Por nós mesmos: em primeiro lugar, porque a caridade tem uma ordem: primeiro amar a Deus sobre todas as coisas, depois a nós mesmos e ao próximo como a nós mesmos.
- Por qualquer pessoa capaz da glória eterna: isto é, por todos os vivos que ainda podem converter-se e pelas almas do Purgatório.
- Por parentes, amigos e pessoas com quem convivemos.
- Pelas autoridades civis e eclesiásticas: o Papa, os bispos e os padres.
- Pelos inimigos: por mandamento de Cristo.
- Pelos pecadores: para que se convertam.
- Pelas almas do Purgatório: por caridade, piedade ou justiça, se por nossa culpa alguma alma sofre mais.
Não é lícito rezar pelos condenados, pois já estão irremediavelmente excluídos da comunhão dos santos e não podem mais arrepender-se. A oração por eles não tem utilidade.
Sagrada Escritura
“Eu te exorto, pois, antes de tudo, a fazer súplicas, orações, intercessões, ações de graças por todos os homens.” — 1 Timóteo 2,1
“Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem.” — Mateus 5,44
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” — Lucas 23,34
Catecismo da Igreja Católica
Nossa oração pelos mortos pode ajudá-los e tornar eficaz sua intercessão em nosso favor. — Cf. CIC, n. 958
Na única família de Deus, o amor mútuo e o louvor comum à Santíssima Trindade unem-nos intimamente em Cristo. — Cf. CIC, n. 959
O que pedir na oração?
Podemos pedir licitamente tudo o que é lícito desejar. Basicamente, há dois tipos de bens:
- Bens espirituais: são aqueles que nos unem a Deus, santificam-nos e conduzem-nos ao Céu: fé, esperança, caridade, paciência, humildade, arrependimento dos pecados, amor a Deus e perseverança final. Esses bens devem ser pedidos incondicionalmente, pois são sempre bons para a nossa salvação. Se rezamos bem, pedindo-os, seremos infalivelmente atendidos, porque Deus quer dar-nos a santidade.
- Bens temporais: saúde, emprego, sustento material, sucesso em coisas boas e outros. Devem ser pedidos condicionalmente: “Se for para o bem da minha alma” e “se for da Vossa santa vontade”. Deus, em sua sabedoria, pode não conceder um bem temporal se isso prejudicar nossa alma. Mesmo que não sejamos atendidos nesses pedidos, isso será para o nosso bem espiritual.
A oração bem feita, pedindo bens espirituais para nós mesmos, é infalível. Quando rezamos pelo próximo, a oração é eficaz, mas o outro pode colocar obstáculos à graça, pois Deus não salva ninguém sem a cooperação da pessoa.
Sagrada Escritura
“Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.” — Mateus 6,33
“Tudo o que pedirdes com fé na oração, recebereis.” — Mateus 21,22
“Esta é a confiança que temos n'Ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a Sua vontade, Ele nos ouve.” — 1 João 5,14
Catecismo da Igreja Católica
Todo pedido cristão deve ter por centro o desejo e a busca do Reino que vem, conforme o ensinamento de Jesus. — Cf. CIC, n. 2632
A intercessão — pedir em favor de outro — é própria de um coração conforme à misericórdia de Deus. — Cf. CIC, n. 2635
Notas complementares sobre dúvidas comuns
- Sinais e “pedir um sinal” a Deus: é perigoso e pode levar à superstição. Devemos confiar na Providência, que nos guia pelos meios ordinários e pela prudência cristã. O demônio pode enganar com sinais. Em geral, evitem-se práticas que buscam respostas em fenômenos exteriores.
- Devoção a Nossa Senhora e aos santos: a adoração, chamada latria, é devida somente a Deus. A veneração dos santos é santa e recomendada pela Igreja, mas a Santíssima Virgem ocupa um lugar único e incomparável no plano da salvação. São Luís Maria de Montfort ensina que a devoção a Nossa Senhora é necessária à salvação por uma necessidade “hipotética”, isto é, porque Deus livremente quis associá-la à obra de Cristo e constituí-la nossa Mãe na ordem da graça. Essa necessidade nunca é absoluta nem independente: somente Jesus Cristo é o Salvador e o único Mediador necessário; toda a missão maternal de Maria deriva dos méritos de Cristo, depende inteiramente d'Ele e conduz as almas a Ele. Isso não significa que uma prática mariana específica, como o Rosário, o escapulário ou a consagração montfortina, seja individualmente obrigatória para a salvação. A hiperdulia prestada a Maria é uma veneração singular, essencialmente diferente da adoração devida somente a Deus.
- Rezar pelos inimigos: é mandamento de Cristo. Mesmo que não se reze nominalmente, deve-se ter ao menos a disposição de alma de rezar por eles em caso de necessidade; o ideal é rezar nominalmente para vencer o ódio e a aversão.
Quem abandona a oração abandona a fonte da graça; quem a cultiva caminha seguro para a salvação. Que possamos, como ensina Santo Afonso, gravar em nosso coração: “Quem reza se salva, quem não reza se condena.”
