
Escola Catequética Santo Agostinho — Formação para catequistas e fiéis
Esta segunda aula de revisão retoma o caminho percorrido da contemplação da humanidade santíssima de Cristo e de sua Paixão até a doutrina da Igreja, da comunhão dos santos, da vida eterna e da mediação subordinada dos membros da Sagrada Família. A unidade de todos esses temas está no mistério pascal: Cristo morreu, ressuscitou, subiu aos céus, enviou o Espírito Santo e permanece agindo em sua Igreja até conduzir os eleitos à glória.
1. A humanidade santíssima e as perfeições de Cristo
Jesus possui verdadeira inteligência humana, verdadeira vontade humana, verdadeiro corpo e verdadeira alma. Sua humanidade não é aparência: é completa, perfeita e inseparavelmente unida à Pessoa divina do Verbo. A alma de Cristo foi enriquecida de plenitude de graça e santidade, e sua vontade humana permaneceu perfeitamente conforme à vontade divina.
“E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.” — Lucas 2,52
Por causa da união hipostática, a humanidade de Cristo é instrumento vivo de nossa salvação. Seus atos humanos possuem valor redentor porque são atos da Pessoa do Filho. Ele pode sentir fome, sede, fadiga, tristeza e dor; contudo, não há nele pecado nem desordem moral.
A inteligência, a vontade e os afetos humanos de Jesus
A humanidade de Cristo não foi passiva. Jesus conheceu de modo humano, escolheu com verdadeira vontade humana e amou com coração humano. Sua vontade humana jamais competiu pecaminosamente com a vontade divina; no Getsêmani, a súplica “não se faça a minha vontade, mas a tua” manifesta a realidade de sua angústia e a perfeição de sua obediência.
Os Evangelhos mostram sua compaixão diante da multidão, suas lágrimas pela morte de Lázaro, sua tristeza sobre Jerusalém e seu zelo pela casa do Pai. Esses afetos não são fraquezas morais: são manifestações perfeitas de uma humanidade ordenada. Em Cristo aprendemos que santidade não é insensibilidade, mas submissão de toda a vida afetiva à verdade e à caridade.
“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração.” — Mateus 11,29
Cristo, Cabeça da humanidade restaurada
Como novo Adão, Jesus recapitula a história humana. Onde o primeiro homem desobedeceu, Cristo obedece; onde Israel foi infiel, Cristo cumpre perfeitamente a Aliança; onde o pecado produziu morte, sua humanidade santíssima torna-se instrumento de vida. A graça que enche sua alma transborda para os membros de seu Corpo Místico.
2. A Paixão e o sacrifício redentor
A Paixão de Nosso Senhor não foi um acidente inesperado. Cristo entregou-se livremente, em obediência amorosa ao Pai, para reparar o pecado e reconciliar a humanidade com Deus. Na Última Ceia antecipou sacramentalmente a oferta que consumaria no Calvário.
“Ninguém tira a minha vida; eu a dou por mim mesmo.” — João 10,18
“Ele foi ferido por causa de nossos crimes, esmagado por causa de nossas iniquidades. O castigo que nos salva pesou sobre ele.” — Isaías 53,5
O sacrifício da Cruz é único, perfeito e suficiente. Cristo é, ao mesmo tempo, Sacerdote e Vítima. Sua obediência repara a desobediência de Adão; seu amor satisfaz superabundantemente pela ofensa do pecado; seu sangue sela a Nova Aliança.
Expiação, satisfação, mérito e redenção
A riqueza da Cruz pode ser contemplada por conceitos complementares. Ela é expiação, porque Cristo oferece por nossos pecados um sacrifício perfeito; é satisfação, porque sua obediência amorosa repara a desordem da ofensa; é mérito, porque Ele conquista para nós a graça e a glória; é redenção, porque nos liberta da escravidão do pecado pelo preço de seu sangue.
Nenhuma dessas expressões significa que o Pai seja cruel e o Filho uma vítima involuntária. Pai e Filho possuem uma só vontade divina de salvação. O Filho encarnado assume livremente a missão redentora, oferecendo em sua vontade humana a perfeita obediência que nós não podíamos oferecer.
A Última Ceia e o Calvário
Na Última Ceia, Jesus não apenas anuncia sua morte: entrega sacramentalmente seu Corpo e seu Sangue e ordena aos Apóstolos que façam aquilo em sua memória. A Santa Missa torna presente, de modo sacramental e incruento, o único sacrifício do Calvário. Não se repete nem se completa a Cruz; aplica-se aos fiéis, através do tempo, seu fruto inesgotável.
“Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” — Lucas 22,19
Aplicação espiritual: unir sofrimentos, trabalhos e penitências ao sacrifício de Cristo dá-lhes valor sobrenatural. Não somos salvos pelo sofrimento isolado, mas pelo amor obediente de Jesus, ao qual podemos associar livremente nossa própria cruz.
3. A Cruz, a descida aos infernos e a Ressurreição
A Cruz, instrumento de suplício, tornou-se o sinal da vitória de Cristo. Venerá-la não significa adorar matéria, mas honrar o Salvador e o mistério de nossa redenção. Depois de sua morte verdadeira, a alma de Jesus desceu à morada dos mortos — os “infernos” no sentido do estado dos justos que aguardavam o Redentor — e anunciou-lhes a libertação.
“Cristo morreu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos, para nos conduzir a Deus.” — 1 Pedro 3,18
No terceiro dia, Cristo ressuscitou verdadeiramente. Não voltou simplesmente à vida mortal: entrou com sua humanidade glorificada numa vida que já não está sujeita à morte. A Ressurreição confirma sua divindade, autentica seus ensinamentos, vence o pecado e abre para nós a esperança da ressurreição futura.
“Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” — 1 Coríntios 15,14
A morte verdadeira de Cristo e a descida à morada dos mortos
Na morte, a alma humana de Cristo separou-se de seu corpo, mas ambas permaneceram unidas à Pessoa divina. Seu corpo não conheceu a corrupção. A descida aos infernos não significa descida ao inferno dos condenados para sofrer, mas a entrada vitoriosa na morada dos mortos, onde os justos aguardavam a abertura do céu.
Ali, Cristo proclama que a redenção foi realizada e liberta os santos que o precederam. O Sábado Santo manifesta o silêncio da criação diante do corpo do Salvador no sepulcro e a extensão universal de sua vitória: Ele é Senhor dos vivos e dos mortos.
A realidade e os frutos da Ressurreição
O sepulcro vazio é um sinal, mas a fé pascal apoia-se sobretudo nos encontros reais do Ressuscitado com seus discípulos. Eles o tocaram, comeram com Ele e reconheceram as chagas. Seu corpo é o mesmo que foi crucificado, porém glorioso, livre das limitações da vida mortal.
A Ressurreição prova a verdade das promessas de Cristo, inaugura a nova criação, causa nossa justificação e garante nossa futura ressurreição. Pelo Batismo, o cristão já participa sacramentalmente da morte e da vida nova de Jesus; por isso, a moral cristã é vida de ressuscitados, ruptura com o pecado e busca das coisas do alto.

4. Ascensão, juízo particular e juízo final
Quarenta dias depois da Ressurreição, Cristo subiu aos céus por seu próprio poder e, segundo sua humanidade, entrou definitivamente na glória. Sentar-se à direita do Pai significa participar, também como homem, do poder e da honra divinos. Do céu, Cristo intercede por nós e governa sua Igreja.
“Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir.” — Atos 1,11
Na morte, cada pessoa comparece diante de Cristo e recebe o juízo particular segundo sua fé e suas obras: céu, purificação ou condenação. No fim do mundo haverá a ressurreição dos mortos e o juízo final, no qual a justiça e a misericórdia de Deus, bem como as consequências de cada ato na história, serão manifestadas diante de todos.
“Está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo.” — Hebreus 9,27
Cristo Rei e intercessor
A Ascensão não é afastamento. A humanidade de Cristo entra na glória e torna-se, para nós, caminho aberto ao Pai. O Senhor permanece presente na Eucaristia, na Palavra, nos sacramentos, na Igreja e na ação do Espírito. Do céu, exerce seu sacerdócio eterno e prepara um lugar para os que lhe pertencem.
Os dois juízos e a responsabilidade humana
O juízo particular manifesta imediatamente a verdade de cada vida diante de Deus. O céu é comunhão perfeita com a Trindade; o purgatório é purificação final dos que morrem na graça, mas ainda necessitam ser purificados; o inferno é separação eterna de Deus escolhida por quem morre em pecado mortal sem arrependimento.
O juízo final não altera arbitrariamente o juízo particular. Depois da ressurreição dos corpos, revela publicamente a sabedoria da Providência, o alcance social de nossas obras, o bem escondido e o mal não reparado. Essa doutrina não pretende alimentar curiosidade sobre datas, mas conversão e vigilância.
“Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.” — Mateus 25,13
5. O Espírito Santo e sua obra santificadora
O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, verdadeiro Deus com o Pai e o Filho. Ele procede eternamente do Pai e do Filho e foi enviado visivelmente no dia de Pentecostes para vivificar a Igreja, recordar os ensinamentos de Cristo, conduzi-la à verdade e santificar as almas.
“Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade.” — João 16,13
É o Espírito Santo quem comunica a graça santificante, habita na alma do justo, concede dons, produz frutos de santidade e distribui carismas para o bem comum. Sua ação não cria uma doutrina nova, mas faz a Igreja penetrar mais profundamente no único depósito recebido de Cristo.
Pentecostes e a missão da Igreja
Em Pentecostes, o Espírito desce sobre Maria e os Apóstolos reunidos. As línguas de fogo manifestam purificação, luz e ardor missionário; a diversidade de idiomas mostra a universalidade do Evangelho e começa a curar a dispersão simbolizada por Babel. Pedro, antes vacilante, anuncia publicamente Cristo e chama à conversão.
O mesmo Espírito age nos sacramentos: regenera no Batismo, fortalece na Confirmação, perdoa pela absolvição sacramental e transforma o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo na ação litúrgica da Igreja. A vida cristã seria impossível sem sua graça preveniente e atual.
Dons, frutos e carismas
Os sete dons — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus — tornam a alma dócil às moções do Espírito. Seus frutos aparecem numa vida transformada: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si. Os carismas, por sua vez, são graças distribuídas para a edificação da comunidade e devem ser discernidos pela autoridade eclesial.
“Há diversidade de dons, mas um só Espírito.” — 1 Coríntios 12,4
6. A verdadeira Igreja fundada por Cristo
A Igreja é simultaneamente uma sociedade visível e uma realidade espiritual, Corpo Místico de Cristo, Povo de Deus e Templo do Espírito Santo. Foi fundada por Nosso Senhor sobre os Apóstolos, tendo São Pedro como fundamento visível e princípio de unidade.
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” — Mateus 16,18
As quatro notas professadas no Credo ajudam a reconhecer a Igreja de Cristo: ela é una, santa, católica e apostólica. É una na fé, nos sacramentos e no governo; santa por sua Cabeça, por sua doutrina, seus meios de santificação e seus frutos; católica porque possui a plenitude dos meios de salvação e é enviada a todos; apostólica porque permanece edificada sobre os Apóstolos e seus legítimos sucessores.
“A única Igreja de Cristo [...] subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele.” — Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 8
A Igreja, mistério visível e sobrenatural
Não se deve separar a “Igreja espiritual” da sociedade visível fundada por Cristo. Assim como no Verbo encarnado a natureza divina e a humana permanecem unidas, a Igreja possui elementos humanos e um princípio sobrenatural. Seus membros podem pecar; sua Cabeça é santa, sua alma é o Espírito Santo e seus sacramentos comunicam a graça.
A santidade da Igreja não significa que todos os católicos sejam santos. Significa que Cristo a santificou, confiou-lhe doutrina santa e meios eficazes de santificação, e nela produz continuamente santos. Os pecados dos membros ferem o testemunho e exigem reforma moral, mas não transformam a Esposa de Cristo em uma realidade falsa.
Pedro, os Apóstolos e seus sucessores
Cristo entregou a Pedro as chaves, mandou-o confirmar os irmãos e apascentar o rebanho. Os bispos sucedem aos Apóstolos e o Bispo de Roma sucede a Pedro. O primado não elimina a missão dos demais bispos; serve à comunhão do colégio episcopal e à unidade universal.
A apostolicidade também inclui fidelidade doutrinária. Não basta uma linha histórica de ordenações se houver recusa da fé apostólica; por outro lado, não basta afirmar fidelidade à Bíblia sem a missão sacramental e visível recebida dos Apóstolos.
7. A Igreja Católica e a salvação
Toda salvação vem de Jesus Cristo, Cabeça da Igreja. A fórmula “fora da Igreja não há salvação” deve ser entendida em sentido cristológico e eclesial: ninguém é salvo sem Cristo e sem alguma relação, conhecida ou misteriosa, com seu Corpo. Quem reconhece que a Igreja Católica foi fundada por Deus e, apesar disso, recusa-se culpavelmente a entrar ou permanecer nela, põe em risco a própria salvação.
“Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.” — Marcos 16,16
Ao mesmo tempo, Deus pode conduzir à salvação aqueles que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho e a Igreja, mas procuram sinceramente a verdade e cumprem sua vontade segundo a consciência. Se forem salvos, não o serão por uma religião falsa nem por suas próprias forças, mas unicamente pela graça de Cristo e em relação com a Igreja.
“Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.” — 1 Timóteo 2,4
Pertencer à Igreja de corpo e de coração
A pertença externa é um grande dom e cria responsabilidades. Receber o Batismo, professar a fé e viver sob a autoridade legítima deve ser acompanhado pela caridade e pela perseverança. Um católico que vive conscientemente em pecado grave não deixa automaticamente de ser membro visível, mas não possui a vida plena da graça enquanto não se reconcilia com Deus.
Também existem graus de relação com a Igreja: catecúmenos, cristãos batizados separados da plena comunhão e pessoas que ignoram sem culpa o Evangelho podem estar ordenados ao povo de Deus de modos distintos. Essas distinções não tornam indiferente a verdade religiosa. A Igreja permanece obrigada a evangelizar, porque conhecer Cristo, receber os sacramentos e viver na plenitude da fé são bens que Deus quer oferecer a todos.
Necessidade da missão
A esperança na misericórdia divina nunca deve converter-se em presunção. Não sabemos o grau de culpa ou de luz de cada pessoa; por isso, evitamos julgar almas individuais e, ao mesmo tempo, anunciamos claramente a necessidade de fé, conversão e Batismo. Evangelizar é ato de caridade, não condenação.
8. A infalibilidade e a indefectibilidade da Igreja
Cristo prometeu assistir sua Igreja. Por isso, ela não pode abandonar definitivamente a fé apostólica nem ensinar como revelado por Deus um erro em matéria de fé ou moral nas condições definidas por sua própria constituição.
O Romano Pontífice é infalível quando, exercendo o ofício de pastor e doutor de todos os cristãos, define de modo definitivo uma doutrina de fé ou moral a ser sustentada pela Igreja inteira. Também o colégio dos bispos, unido ao Papa, goza de infalibilidade quando define solenemente em concílio ecumênico ou quando, disperso pelo mundo, concorda em propor uma doutrina como definitiva.
“Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos.” — Lucas 22,32
Infalibilidade não significa impecabilidade, inspiração contínua ou acerto em opiniões privadas, decisões prudenciais e atos administrativos. É uma assistência negativa e positiva do Espírito Santo destinada a preservar o depósito da fé.
Magistério extraordinário e ordinário
O Magistério extraordinário aparece em definições solenes do Papa ou de um concílio ecumênico unido a ele. O Magistério ordinário e universal ocorre quando os bispos, em comunhão com o sucessor de Pedro, ensinam pelo mundo uma doutrina como pertencente definitivamente à fé ou à moral. Nem todo documento possui o mesmo grau de autoridade; a resposta do fiel deve considerar a intenção, a forma e o conteúdo do ensinamento.
A indefectibilidade significa que a Igreja permanecerá até o fim como Cristo a constituiu, conservando a fé, os sacramentos essenciais e a sucessão apostólica. Crises, maus pastores, confusões e pecados podem causar danos profundos, mas não anulam as promessas de Cristo.
Obediência e discernimento
A obediência católica não é culto à personalidade. Ela se ordena a Cristo e respeita a hierarquia real das verdades e dos atos magisteriais. Ao mesmo tempo, dificuldades e crises não autorizam cada fiel a transformar-se em juiz supremo da Igreja. O caminho seguro reúne estudo, oração, prudência, respeito às definições dogmáticas e fidelidade à Tradição recebida.
9. Igreja e Estado: distinção, cooperação e lei moral
A autoridade espiritual e a autoridade civil possuem campos próprios. A Igreja recebeu de Cristo a missão de conduzir os homens à salvação; o Estado deve promover o bem comum temporal. Distinção não significa hostilidade: ambas as sociedades servem às mesmas pessoas e devem cooperar, respeitando a lei natural e os direitos de Deus.
“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” — Mateus 22,21
Nenhuma lei humana pode tornar justo aquilo que contradiz a lei divina. Quando uma ordem civil exige pecado, permanece válido o princípio apostólico: “É necessário obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29). O cristão deve respeitar a autoridade legítima, trabalhar pelo bem comum e testemunhar a verdade com prudência e coragem.
O bem comum e os limites do poder
O Estado não é fonte absoluta da moral. Sua autoridade vem de Deus através da natureza social do homem e está limitada pela dignidade humana, pela lei natural e pelo bem comum. Leis injustas, especialmente as que ordenam diretamente o pecado ou atacam direitos fundamentais, não obrigam moralmente do mesmo modo que leis justas.
A Igreja não se confunde com partido político nem pretende administrar tecnicamente todos os assuntos civis. Contudo, possui o direito e o dever de julgar os aspectos morais das questões públicas quando estão em jogo a salvação das almas, a família, a vida, a educação, a liberdade religiosa e a justiça.
Deveres do leigo católico
Cabe especialmente aos leigos ordenar as realidades temporais segundo Deus. Isso inclui votar e atuar com consciência formada, defender os vulneráveis, recusar corrupção, cumprir obrigações legítimas e testemunhar publicamente a fé. A caridade política procura o verdadeiro bem da pessoa inteira, não apenas vantagem econômica ou vitória de grupo.
10. Comunhão dos Santos, perdão e vida eterna
A Comunhão dos Santos é a união sobrenatural de todos os membros de Cristo: os fiéis peregrinos na terra, as almas que se purificam e os santos que já contemplam a Deus. Todos participam dos mesmos bens espirituais, principalmente da Eucaristia, da fé e da caridade.
“Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele.” — 1 Coríntios 12,26
Essa comunhão fundamenta a intercessão dos santos e a oração pelos mortos. Pedir a oração de um santo não substitui Cristo: manifesta a unidade de seu Corpo e depende inteiramente de sua mediação.
No Credo professamos também a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. O Batismo perdoa o pecado original e todos os pecados pessoais anteriores; o sacramento da Penitência reconcilia o batizado que caiu depois. No último dia, Deus ressuscitará os corpos, e cada pessoa viverá eternamente no destino confirmado pelo juízo.
“Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.” — Símbolo dos Apóstolos
As três condições da única Igreja
A Igreja militante combate na terra contra o pecado; a Igreja padecente é purificada no purgatório; a Igreja triunfante contempla Deus no céu. Não são três igrejas independentes, mas três condições dos membros do mesmo Corpo. A caridade atravessa essas condições: os santos intercedem por nós, nós rezamos pelas almas do purgatório e todos dependemos dos méritos de Cristo.
Céu, purgatório e inferno
O céu é a visão beatífica, conhecimento imediato e amoroso de Deus, no qual todo desejo justo encontra cumprimento. O purgatório não é uma segunda oportunidade depois de uma vida de rejeição: é purificação dos que já morreram amigos de Deus. O inferno é consequência definitiva da recusa livre e impenitente do amor divino.
A vida eterna começa em semente pela graça. Cada ato de fé, esperança e caridade orienta a pessoa para Deus; cada pecado grave não arrependido rompe essa comunhão. A lembrança dos novíssimos — morte, juízo, céu e inferno — torna a vida séria, mas também enche de esperança quem vive unido a Cristo.
“Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face.” — 1 Coríntios 13,12

11. O canal das graças e a Sagrada Família
A última aula estudada distinguiu cuidadosamente a mediação única e necessária de Cristo das mediações participadas das criaturas. Jesus é o único Mediador no sentido absoluto: somente Ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, reconciliou-nos com o Pai e mereceu todas as graças por sua Paixão.
“Há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem.” — 1 Timóteo 2,5
A mediação de Maria é inteiramente dependente de Cristo. Por desígnio divino, ela cooperou singularmente na Encarnação e na obra redentora, e continua a interceder maternalmente pelos membros de seu Filho. Sua missão não diminui nem acrescenta algo à suficiência de Cristo; manifesta a fecundidade da única mediação do Salvador.
“A função maternal de Maria para com os homens de modo algum obscurece ou diminui esta mediação única de Cristo; manifesta antes a sua eficácia.” — Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 60
São José, esposo de Maria, pai legal de Jesus e Patrono da Igreja Universal, exerce uma intercessão paterna e subordinada. A tradição aplica-lhe espiritualmente o convite feito acerca de José do Egito: Ite ad Ioseph, “Ide a José” (Gn 41,55). Como protegeu e serviu Jesus e Maria na terra, continua a proteger a Igreja, Corpo Místico de Cristo.
A ordem deve permanecer clara: toda graça procede da Santíssima Trindade; é merecida e comunicada por Cristo; as intercessões de Maria, de José, dos anjos e dos santos dependem inteiramente dele. Assim, a devoção à Sagrada Família, quando vivida corretamente, conduz ao centro: adorar a Deus, obedecer a Cristo e crescer na graça.
Mediação principal e mediações participadas
A palavra “mediação” não é usada sempre no mesmo grau. Cristo é Mediador por natureza e por conquista: une em sua Pessoa Deus e homem e realiza objetivamente a redenção. Os santos mediam apenas por participação, intercedendo e cooperando como membros vivos do Corpo. Sua ação recebe de Cristo toda a eficácia.
Maria possui uma cooperação singular porque deu ao Verbo a humanidade na qual Ele nos salvou, permaneceu unida ao Filho e foi associada maternalmente à missão da Igreja. São José recebeu uma missão singular de esposo, pai virginal, guardião do Redentor e chefe da Sagrada Família. A grandeza de ambos não concorre com Jesus: provém de sua proximidade e de seu serviço a Ele.
Nazaré como escola de vida espiritual
Em Nazaré contemplamos uma hierarquia de santidade que parece inverter a autoridade doméstica: Jesus, que é Deus, obedece a Maria e José; Maria, a mais santa das criaturas, respeita a missão de seu esposo; José governa servindo e entrega toda sua força para proteger o tesouro recebido. Assim, autoridade torna-se serviço, obediência torna-se amor e silêncio torna-se adoração.
A devoção à Sagrada Família deve produzir frutos concretos: fidelidade conjugal, pureza, oração doméstica, proteção das crianças, amor ao trabalho honesto, respeito à autoridade e disponibilidade à vontade de Deus. Consagrações e práticas devocionais só atingem sua finalidade quando conduzem a essa transformação.
“Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.” — Lucas 2,51
12. Síntese da segunda parte e de todo o percurso
As Aulas 9 a 16 mostram os frutos da Encarnação estudada na primeira parte. O Filho assume uma humanidade perfeita, oferece-se na Cruz, desce à morada dos mortos, ressuscita, sobe aos céus e envia o Espírito Santo. O Espírito vivifica a Igreja fundada por Cristo, conserva-a na verdade e distribui nela os meios de santificação. Unidos nesse Corpo, os fiéis recebem o perdão, participam da Comunhão dos Santos e caminham para a ressurreição e a vida eterna.
Leituras para retomar
- Isaías 52,13–53,12; João 18–20.
- Atos 1–2; 1 Coríntios 15.
- Mateus 16,13-20 e 28,16-20; João 17.
- 1 Coríntios 12; Efésios 1,15-23 e 4,1-16.
- Apocalipse 20–22.
Referências doutrinárias
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 571-1065.
- Concílio Vaticano I, Constituição Pastor Aeternus.
- Concílio Vaticano II, Constituição Lumen Gentium, especialmente nn. 8, 14-16, 25 e 48-69.
- Leão XIII, Encíclica Quamquam Pluries; São João Paulo II, Exortação Redemptoris Custos.
