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Aula 9 — As Perfeições da Humanidade de Cristo e o Mistério da Paixão

Aula 9 do Curso de Catecismo da Escola Catequética Santo Agostinho.

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Ecce Homo, de Antonio Ciseri
Ecce Homo, de Antonio Ciseri. Obra em domínio público — Wikimedia Commons.

As Perfeições da Humanidade de Cristo e o Mistério da Paixão

1. Em Cristo, tudo favorece o mérito e a expiação

  • Em Cristo se unem duas realidades:

    • Tudo o que pode favorecer o mérito diante de Deus: perfeição da inteligência, da vontade, das virtudes.

    • Tudo o que pode favorecer a expiação: capacidade de sofrer dores e humilhações.

  • Assim, cada ato de Cristo tem um valor infinito diante do Pai e, ao mesmo tempo, é expiatório pelos nossos pecados.

Bíblia: “O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Is 53,6).
CIC: “Toda a vida de Cristo é mistério de redenção. A redenção vem-nos antes de mais pela cruz de Cristo” (CIC 517).

2. Perfeições da alma

  • Desde a concepção, a humanidade de Cristo estava unida ao Verbo.

  • Portanto, sua santidade era máxima desde o primeiro instante: não podia crescer em santidade como nós, porque já possuía a perfeição plena.

  • O que “crescia em sabedoria, estatura e graça” (Lc 2,52) significa apenas que essa perfeição se tornava cada vez mais manifesta aos homens, não que Ele aumentasse em santidade.

CIC: “A alma humana que o Filho de Deus assumiu é dotada de verdadeira ciência humana” (CIC 472).

3. Na inteligência: visão beatífica, ciência infusa e ciência adquirida

  • Visão beatífica: desde a concepção, Cristo via a Deus face a face.

  • Ciência infusa: conhecimento dado diretamente por Deus à sua inteligência humana (como Adão recebeu ao ser criado).

  • Ciência adquirida: conhecimento que Cristo adquiriu pela experiência humana, mas sempre em perfeição superior.

  • Ele conhecia tudo: passado, presente e futuro.

  • Quando disse “Nem o Filho sabe o dia, mas somente o Pai” (Mc 13,32), significava apenas que não lhe fora dado revelá-lo aos homens, e não que ignorava.

CIC: “Pela sua união com a Sabedoria divina na pessoa do Verbo encarnado, Cristo gozava da plenitude da ciência dos desígnios eternos que veio revelar” (CIC 474).

4. Plena consciência e advertência de seus atos

  • Todo ato de Cristo foi realizado com plena advertência e plena liberdade.

  • Diferente de nós, que muitas vezes agimos com ignorância ou distração, Ele sabia perfeitamente o que fazia e por quê.

  • Isso aumenta o valor e mérito infinito de suas ações.

Bíblia: “Sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora... amou-os até o fim” (Jo 13,1).

5. Perfeição das virtudes

  • Cristo possuía todas as virtudes no grau mais perfeito possível.

  • Algumas virtudes não se aplicavam a Ele, como a penitência (pois não tinha pecado) e a fé e a esperança (pois já possuía a visão beatífica).

  • Mas possuía todas as demais em plenitude.

  • A virtude central em Cristo é a caridade, que ordenava todas as outras.

CIC: “Cristo é o modelo das bem-aventuranças e da lei nova. Ele mesmo viveu todas as virtudes” (CIC 459).

6. Perfeição da caridade

  • O amor de Cristo a Deus e aos homens era infinito.

  • Daí a importância da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, sinal desse amor.

  • Essa devoção é reparadora: reconhece a misericórdia de Deus, mas também repara pelos pecados dos homens.

Bíblia: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).
CIC: “O Coração de Jesus Cristo, traspassado por nossos pecados, é sobretudo o sinal e símbolo do amor com que o divino Redentor ama incessantemente o eterno Pai e todos os homens” (CIC 478).

7. As paixões em Nosso Senhor Jesus Cristo

  • Jesus experimentou as paixões humanas (alegria, tristeza, ira, compaixão), mas sempre de modo perfeito, ordenado pela razão.

  • Diferente de nós, não teve paixões antecedentes (que surgem sem controle da razão), mas apenas paixões consequentes, plenamente reguladas pela sua vontade.

  • Exemplo: Jesus chorou pela morte de Lázaro (Jo 11,35), mas sua tristeza era totalmente ordenada pela razão e pelo amor.

  • Assim, Cristo nos ensina que as paixões devem ser submetidas à razão iluminada pela fé.

CIC: “O coração humano de Cristo, animado pela alma racional, participa da vida da Trindade” (CIC 470).

8. As perfeições do corpo de Jesus Cristo

  • Seu corpo foi formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria: era perfeitíssimo.

  • Não tinha defeitos particulares (doenças, deformidades), mas possuía a capacidade de sofrer dores, fome, sede, fadiga.

  • Sua perfeição permitia:

    • maior sensibilidade à dor;

    • maior resistência ao sofrimento (por isso pôde suportar tanto até a Cruz).

Bíblia: “Era desprezado e o último dos homens, homem de dores, experimentado no sofrimento” (Is 53,3).

9. As ações de Cristo têm um valor infinito e são ações da Pessoa Divina

  • Cada ato humano de Cristo pertence à Pessoa Divina do Verbo.

  • Por isso, têm valor infinito.

  • Uma única ação já teria bastado para reparar todos os pecados do mundo.

CIC: “A pessoa do Verbo encarnado realizou e sofreu com liberdade e amor tudo o que pertencia ao nosso desígnio de salvação” (CIC 606).

10. Por que Nosso Senhor quis sofrer tanto? O motivo da Paixão

  • Embora uma única ação bastasse para nos salvar, Cristo quis sofrer imensamente por amor a nós.

  • Quanto mais difícil e custoso um bem é alcançado, mais manifesta o amor de quem o busca.

  • Assim, a Paixão é prova suprema do amor de Cristo pela nossa salvação.

Bíblia: “Ninguém tem maior amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
CIC: “O sacrifício de Cristo é único: completa e ultrapassa todos os sacrifícios. É dom de Deus e prova de amor” (CIC 614).

11. Efeitos da Paixão

  1. Livra-nos do pecado.

  2. Livra-nos do poder de Satanás.

  3. Livra-nos da pena devida pelo pecado.

  4. Reconcilia-nos com Deus.

  5. Abre-nos as portas do Céu.

  6. Exalta Cristo como Senhor de todos.

Bíblia: “Justificados, pois, pela fé, temos a paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5,1).
CIC: “O sacrifício de Cristo reconcilia-nos com Deus: é expiação, reparação, satisfação e redenção” (CIC 615).

12. Redenção objetiva e subjetiva

  • Redenção objetiva: Cristo morreu por todos, e sua Paixão tem valor suficiente para salvar a todos os homens.

  • Redenção subjetiva: nem todos aproveitam; somente os que aderem à graça e permanecem fiéis se beneficiam da redenção.

  • Por isso, a liturgia sempre conservou a fórmula “por muitos” nas palavras da consagração.

  • Cristo derramou o sangue “por todos” no valor, mas “por muitos” na aplicação.

Bíblia: “O Filho do Homem... veio para dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,28).
CIC: “O sacrifício de Cristo é oferecido por todos os homens, mas ele só produz frutos nos que recebem a graça” (CIC 606-608).

Conclusão

  • Em Cristo, vemos a perfeição absoluta da humanidade unida ao Verbo: inteligência, vontade, virtudes, paixões ordenadas, corpo perfeito.

  • Ele quis sofrer mais do que o necessário, para manifestar o seu amor e mostrar a gravidade dos nossos pecados.

  • Sua Paixão nos redimiu objetivamente a todos, mas subjetivamente só se salva quem acolhe a graça.

  • Meditar a Paixão é o caminho mais seguro para compreender a gravidade do pecado, o amor infinito de Cristo e a urgência da conversão.